Michael Sandel: Why we shouldn't trust markets with our civic life

Michael Sandel: Why we shouldn't trust markets with our civic life

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Language: Portuguese

Type: Human

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Tradutor: Margarida Ferreira Revisora: Pedro Henrique Cabral Eis uma pergunta em que é preciso voltarmos a pensar todos juntos: Qual deverá ser o papel do dinheiro e dos mercados nas nossas sociedades? Hoje em dia há muito poucas coisas que o dinheiro não possa comprar. Se forem condenados a uma pena de prisão em Santa Bárbara, na Califórnia, convém saberem que, se não gostarem do alojamento normal, podem comprar uma melhoria para a cela prisional. (Risos) É verdade. Quanto acham que pode custar? Qual seria o vosso palpite? Quinhentos dólares? Não é o Ritz-Carlton. É uma prisão! Oitenta e dois dólares por noite. Oitenta e dois dólares por noite. Se forem a um parque de diversões e não quiserem ficar em longas filas para as atrações mais concorridas, existe agora uma solução. Em muitos desses parques podemos pagar um extra
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para passar para a frente da fila. Chamam-lhe bilhetes "rápidos" ou VIP. Isto não acontece só nos parques de diversão. Em Washington, D.C., formam-se por vezes longas filas, para importantes sessões do Congresso. Ora bem, as pessoas não gostam de esperar em longas filas, talvez durante toda a noite, às vezes à chuva. Então, para lobistas e outras pessoas que querem assistir a essas sessões, mas não gostam de esperar, há companhias especializadas em colocar pessoas para reservar lugares em filas. Podemos contactá-las, pagamos-lhes uma certa quantia em dinheiro e eles contratam pessoas sem-abrigo e outras que precisam de emprego para ficar na fila o tempo que for preciso. Um pouco antes do início da sessão, o lobista coloca-se no lugar dele, no início da fila, e senta-se nas primeiras cadeiras da sala. Pagar para outra pessoa ficar na fila! Está a verificar-se o recurso a mecanismos de mercado, ao pensamento de mercado e a soluções de mercado em arenas bem maiores.
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Pensem na forma como fazemos as nossas guerras. Sabiam que, no Iraque e no Afeganistão, havia mais militares privados contratados no terreno do que militares das tropas dos EUA? Não porque tivesse havido um debate público sobre se devemos entregar ou não a guerra a terceiros, a companhias privadas, mas foi o que aconteceu. Nos últimos 30 anos temos vivido uma revolução silenciosa. Fomos desviados, quase sem nos apercebermos, de possuir uma economia de mercado para nos tornarmos sociedades de mercado. A diferença é esta: uma economia de mercado é uma ferramenta, uma ferramenta valiosa e eficaz, para organizar uma atividade produtiva. Mas uma sociedade de mercado é um lugar em que quase tudo está à venda. É um modo de vida em que começam a dominar o pensamento do mercado e os seus valores,
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todos os aspetos da vida: relações pessoais, vida familiar, saúde, educação, política, leis, cidadania. Ora bem, porquê preocuparmo-nos? Porquê preocuparmo-nos com a nossa transformação em sociedades de mercado? Por duas razões, julgo eu. Uma delas tem a ver com a desigualdade. Quanto mais coisas o dinheiro puder comprar, mais diferença fará haver muito, ou haver pouco. Se a única coisa que o dinheiro determinasse fosse o acesso a iates, a férias luxuosas ou aos BMW, a desigualdade não faria grande diferença. Mas, quando o dinheiro começa a governar cada vez mais o acesso a bens essenciais para uma vida razoável — assistência médica decente, acesso à educação de qualidade, voz política e influência em campanhas — quando o dinheiro passa a governar todas estas coisas,
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a desigualdade faz muita diferença. Assim, a mercantilização de todas as coisas aguça o ferrão da desigualdade e as suas consequências sociais e civis. Isso é uma razão para nos preocuparmos. Há uma segunda razão para além da preocupação com a desigualdade. É esta: No que se refere a algumas práticas e bens sociais, o pensamento do mercado e os valores do mercado, quando entram, podem mudar o significado dessas práticas e excluir atitudes e normas com que nos deveríamos preocupar. Gostava de dar o exemplo do uso controverso de um mecanismo de mercado — um incentivo em dinheiro — e ver o que pensam sobre isso. Muitas escolas debatem-se com o problema de motivar os alunos, especialmente os de origem de camadas desfavorecidas, para estudarem a valer, para aproveitarem a escola, para se aplicarem nos estudos.
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Alguns economistas propuseram uma solução de mercado: Oferecer incentivos em dinheiro aos alunos que tirarem boas notas, altas classificações nos testes ou que leiam livros. Experimentaram isso. Fizeram algumas experiências nalgumas das mais importantes cidades norte-americanas, em Nova Iorque, em Chicago, em Washington. Tentaram isso, oferecendo 50 dólares por um "A", 35 dólares por um "B". Em Dallas, no Texas, há um programa que oferece dois dólares aos alunos de oito anos por cada livro que eles lerem. Vamos ver uma coisa. Há pessoas a favor, outras são contra este incentivo monetário para motivar o progresso escolar. Vejamos o que as pessoas aqui pensam sobre isto. Imaginem que são os responsáveis de um importante estabelecimento de ensino e alguém vos apresenta essa proposta. Digamos que é uma fundação. Eles irão fornecer os fundos. Vocês não terão que mexer no orçamento. Quantos são a favor e quantos são contra tentar esta experiência?
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Vejamos pelas mãos levantadas. Primeiro, quantos acham que, pelo menos, vale a pena tentar, para ver se funcionará? Levantem as mãos. E quantos são contra? Quantos? Logo, a maioria aqui opõe-se, mas há uma minoria considerável a favor. Vamos discutir isto. Comecemos com os que põem objeções, os que rejeitam a proposta sem sequer experimentar. Qual seria a vossa razão? Quem deseja começar a discussão? Sim? Heike Moses: Olá a todos. Chamo-me Heike. Penso que a proposta mata a motivação instrínseca, portanto, no que se refere a essas crianças, se elas gostassem de ler, estariam a afastar esse incentivo, só por lhes dar dinheiro, o que muda o seu comportamento. Michael Sandel: Afasta o incentivo instrínseco. Qual é, ou devia ser, a motivação intrínseca? HM: Bem,a motivação intrínseca devia ser "aprender". MS: Aprender. HM: Para conhecer o mundo. E depois, se deixarmos de lhes dar dinheiro, o que acontece?
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Elas deixam de ler? MS: Agora, vejamos se há alguém a favor, alguém que pense valer a pena tentar. Elizaberh Loftus: Chamo-me Elizaberh Loftus. Você disse "vale a pena tentar". Então porque não tentar, fazer a experiência e avaliar as coisas? MS: E avaliar. O que é que avaliaria? Avaliaria quantos... EL: Quantos livros eles leriam e quantos livros continuariam a ler depois de deixarem de lhes pagar. MS: Oh, depois de deixarem de lhes pagar. Ok, que tal isto? HM: Para ser franca, penso que, sem querer ofender ninguém, isso é uma solução tipicamente americana. (Risos) (Aplausos) MS: Certo. O que surgiu deste debate é a seguinte pergunta: O incentivo monetário irá expulsar, corromper ou excluir uma motivação mais nobre? A lição intrínseca que esperamos transmitir é aprender a gostar de aprender e de ler
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pelos seus próprios méritos. As pessoas discordam sobre qual será o efeito, mas parece que é essa a questão: de certa forma, um mecanismo de mercado ou um incentivo monetário ensina a lição errada. Se assim é, o que será dessas crianças mais tarde? Tenho que contar-vos o que aconteceu com essas experiências. O dinheiro para as boas notas alcançou resultados mistos, porque a maioria não obteve notas mais altas. Os dois dólares por cada livro levou os jovens a ler mais livros. Também os levou a lerem livros mais curtos. (Risos) Porém a questão real é: o que será dessas crianças mais tarde? Terão elas aprendido que ler é um frete, é fazer uma tarefa a troco de pagamento — é essa a preocupação — ou isso poderá levá-las a ler — talvez pela razão errada no início — mas depois fazê-las apaixonar-se pela leitura pelos seus próprios méritos? O que isto, mesmo este breve debate, traz à tona
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é uma coisa que muitos economistas esquecem. Os economistas muitas vezes supõem que os mercados são inertes, que eles não entram em contacto nem corrompem os bens que são trocados. O mercado, supõem eles, não altera o sentido nem o valor dos bens que são comercializados. Isso pode ser verdadeiro se estivermos a falar de bens materiais. Quer me vendam uma televisão de ecrã plano quer me ofereçam uma de presente, ela será o mesmo bem. Funcionará da mesma maneira. Mas o mesmo pode não ser verdade se estivermos a falar de bens não materiais e de práticas sociais, como ensinar e aprender ou envolver-se em grupo na vida cívica. Nestas áreas, usar mecanismos de mercado e incentivos em dinheiro pode corromper ou eliminar os valores e atitudes alheias ao mercado que devem ser valorizados. Quando vemos
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que os mercados e o comércio, quando se estendem para além do domínio material, podem mudar o carácter dos bens, podem mudar o sentido das práticas sociais, como no exemplo de ensinar e aprender, devemos perguntar-nos a que domínio pertencem os mercados e a que domínio não pertencem, em que situação eles podem corromper valores e atitudes que devam ser tomados em consideração. Mas, para haver este debate, temos que fazer uma coisa em que não somos muito bons, que é argumentar em público, em conjunto, sobre o valor e o sentido das práticas sociais que prezamos, desde os nossos corpos até à vida familiar, até às relações pessoais, até à saúde, até ao ensino e à aprendizagem, até à vida cívica. Estas questões são polémicas e, por isso, temos a tendência para nos afastarmos delas.
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De facto, durante os últimos 30 anos, quando a argumentação do mercado e o pensamento do mercado criaram força e ganharam prestígio, o nosso discurso púbico nessa altura esvaziou-se. Ficou vazio de um sentido moral mais amplo. Com receio de desavenças, deixámos essas questões de lado. Mas quando vemos que os mercados mudam o carácter dos bens, devemos debater entre nós estas questões mais importantes sobre como avaliar os bens. Um dos efeitos mais corrosivos na comunidade de colocar preço em todas as coisas é o sentimento de que estamos todos juntos no mesmo barco. Contra o pano de fundo da crescente desigualdade, comercializar todos os aspetos da vida leva a uma situação em que os que são ricos
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e os que têm meios modestos vivem vidas cada vez mais separadas. Vivemos, trabalhamos, fazemos compras e divertimo-nos em locais diferentes. Os nossos filhos vão a escolas diferentes. Isso não é bom para a democracia, nem é uma maneira satisfatória de viver, mesmo para os que têm condições para comprar um lugar à cabeça da fila. Eis porquê: A democracia não exige uma igualdade perfeita, mas o que ela exige é que os cidadãos partilhem uma vida comum. O que é importante é que as pessoas de diferentes origens sociais e diferentes tipos de vida se encontrem umas com as outras, colidam umas contra as outras no curso normal da vida. Porque é isso que nos ensina a negociar e a respeitar as nossas diferenças. É assim que começamos a preocupar-nos com o bem comum.
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E então, no final, a questão dos mercados não é principalmente uma questão económica. É uma questão sobre como queremos viver juntos. Queremos uma sociedade em que está tudo a venda ou há certos bens morais e cívicos que o mercado não honra e que o dinheiro não pode comprar? Muito obrigado. (Aplausos)

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